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Mostrando postagens de setembro, 2024

A Poesia do Coração

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  Memória, dor e humanidade em um espaço de cuidados intensivos. Em Os Miseráveis, romance que enaltece a luta pela dignidade humana, Victor Hugo sentencia que “a vida é um hospício onde cada um tem a sua mania”; recordei-me do clássico francês, que havia lido ainda em minha juventude, no momento em que me encontrava enfermo em uma UTI, devido a um infarto, o segundo, em menos de seis meses, diga-se de passagem. A fragilidade da existência, confrontada com a loucura da alegria e a sanidade da dor, revelava-se em sua forma mais crua naquele espaço reservado para cuidados intensivos. Um microcosmo da sociedade onde a luta pela vida, a fragilidade do corpo e a força do espírito se entrelaçavam. Foi nesse cenário, entre a vida e a morte, que a atitude de um profissional me fez pensar sobre o sentido da apatia de um determinado momento, mascarada pelo profissionalismo.   A alegria sempre foi uma companheira constante, especialmente nos momentos mais desafiadores. Naquele ambien...

0 Irmão do Henfil

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  A dor como ascese e o humanismo de Betinho Oscar Wilde dizia poder simpatizar com tudo, exceto com o sofrimento. Shelley lembrava que alguns homens aprendiam sofrendo o que ensinavam por meio de meras palavras. Wordsworth, poeta e sábio, afirmava que o sofrimento era permanente e obscuro, participando da natureza do infinito. Montaigne, finalmente, asseverava que o homem, temeroso de sofrer, antecipava essa forma de dor que é temer alguma coisa. Essas quatro visões desse antiquíssimo tema, se não atenuam em nada os padecimentos do mundo, ao menos lançam luz sobre a possibilidade de discutir o sofrimento em vários planos diferentes. Com Wilde, estamos todos nós: podemos simpatizar com o sofredor, jamais com o sofrimento. De Wordsworth discordamos num aspecto: a perenidade do padecimento não é real, por isso sua participação no infinito é parcial. Shelley e Montaigne são, a respeito, incontestáveis. Em muitos de seus artigos publicados no "Jornal da Tarde" e "O Est...

Simplicidade & Felicidade: uma reflexão filosófica

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A simplicidade como virtude quase sublime - Fénelon e o despojamento da alma François de Saligna de la Mothe, filósofo francês mais conhecido por Fénelon, costumava dizer que "muitas pessoas são sinceras, mas não são simples. Nada dizem a não ser o que acreditam ser verdadeiro e não aparentam coisa alguma, exceto o que de fato são. Mas estão sempre pensando em si mesmas, escolhendo cada palavra e pensamento, preocupando-se sempre consigo, na suposição de terem feito pouco ou muito. Jamais se mostram à vontade com os outros, nem os outros com elas. Ficar absorvido no mundo que nos cerca e nunca olhar para dentro é o extremo oposto da simplicidade. A alma que olha para onde vai, sem perder tempo com argumentos inúteis e sem voltar-se para trás, possui a verdadeira simplicidade". Para o arcebispo de Cambrai e também um dos maiores escritores da Europa do século XVIII, a simplicidade não era sinônimo de tolice. Antes, "longe de ser uma tolice" a simplicidade real ...

Asa Verde: sertão, dor e responsabilidade humana

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A seca como memória e a canção como forma de resistência     Luís Gonzaga, o falecido "Rei do Baião", nascido em Exu, no sertão pernambucano, registrou em suas canções o sofrimento de um povo que, de sol a sol, perpetua a esperança de um dia ver suas terras férteis. O velho sanfoneiro de choradinhos conhecia profundamente os estigmas deixados pela seca que alastra a fome e a morte por aquele chão abrasado. Certa vez, no término da construção de um açude, um lavrador da terra, onde a urze a custo desabrocha, recebeu em troca de seu trabalho um salário que pouco restava para comprar uma rapadura. Então, o calejado homem de olhar febril ergueu seus braços ao céu e exclamou: "Que Deus faça cair uma chuva de feijão e outra de farinha para que eu possa matar a fome de meus filhos!" Recitada em cordel, registrada em premiadas fotos e tiragens cinematográficas que fazem o espectador atento sentir-se o pior dos mortais, a tão prolongada estiagem transformou-se em símbolo da ...

Na Natureza Nada se Cria, Tudo se Transforma

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Ciência, persistência e sustentabilidade na trajetória de uma pesquisadora  que transforma resíduos em futuro. “Na natureza nada se cria, tudo se transforma.”  Essa frase, atribuída ao químico e alquimista Antoine Lavoisier, ecoa como um lembrete constante de que os recursos naturais são finitos e que nossa responsabilidade é encontrar maneiras inteligentes e sustentáveis de utilizá-los. Nesse contexto, a trajetória da pesquisadora  Raquel Luísa Pereira Carnin  brilha como um farol, iluminando o caminho para um futuro mais consciente e equilibrado. Raquel Carnin, discípula dos mais antigos alquimistas e companheira contemporânea de grandes cientistas da atualidade possui uma mente brilhante e rica, com uma paleta diversificada de habilidades e interesses. Sua atuação abrange desde o laboratório até as salas de aula, e sua dedicação à pesquisa e à aplicação prática de conhecimentos químicos. Mestrado em Ciência e Engenharia de Materiais, Na Universidade do Estado de S...

Violência, esse mal eterno

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 Entre dados alarmantes e reflexões humanas, a violência em Joinville  revela um espelho inquietante da condição contemporânea. A cidade de Joinville, em Santa Catarina, enfrenta um cenário complexo e preocupante no que diz respeito à violência. O fenômeno da agressão, que se manifesta de diversas formas, tem impactado a vida dos cidadãos e desafiado as abordagens tradicionais de combate. Autor de obras clássicas, Ernest Hemingway registrou em um dos seus trabalhos que “O mundo é um bom lugar e vale a pena lutar por ele.”* Essa frase, embora aparentemente otimista, reconhece a luta constante contra a violência e a busca por um mundo melhor. A violência, como um vírus insidioso, dissemina-se de pessoa para pessoa. Nos últimos vinte anos, algo desencadeou uma reação em cadeia, trazendo à tona o pior e relegando o “sal da terra” ao esquecimento. O homem contemporâneo carrega consigo não apenas sua animalidade, mas também seus temores, desejos e agressividade, bem como uma divinda...

A Manipulação das Massas: Os "Demônios" de Dostoiévski na Era Digital

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Como as redes sociais e os meios de comunicação contribuem para a criação de um novo tipo de tirania nas sociedades contemporâneas. Em “Os Demônios”, artigo publicado no Jornal da Tarde – O Estado de São Paulo, em 4 de agosto de 1978, o jornalista e escritor Luiz Carlos Lisboa baseia-se na obra homônima do escritor russo Dostoiévski (Os Demônios, publicada como folhetim em um jornal russo entre 1870 e 1872) para indagar como “a patogenia da mente humana modifica relações humanas, fomenta ódios entre grupos e etnias, levanta nações em guerra, fabrica uma colossal massa de informação supérflua e confunde o mundo.” Os atuais meios de comunicação – que alguns usam capciosamente e outros tentam destruir e até proíbem – nos fornecem, com um simples gesto em uma tela, o cenário de um infindável e dantesco desafio político entre pessoas que, travestidas de honestidade – como não poderia deixar de ser – são especialistas e perpetuadores da manipulação das massas, creditados como verdadeiros ben...

Domínio da Consciência

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  "A verdadeira cura ocorre quando a mente, o corpo e o espírito estão em harmonia. A ciência pode nos mostrar o caminho para entender o mundo físico, mas é a espiritualidade que nos guia para além dos limites da matéria." (Chopra, 1990). O que acontece quando dois gigantes do pensamento, um cientista-espiritualista e um cientista, se encontram para debater o futuro de Deus? Deepak Chopra, defensor de uma filosofia espiritualista, e Leonard Mlodinow, professor de física do Instituto de Tecnologia da Califórnia, trazem à tona uma discussão fascinante sobre os limites da ciência e da espiritualidade. Em um debate televisivo sobre o “Futuro de Deus”, Chopra, que tem entre seus espectadores estudantes, cientistas e leigos, encontra Mlodinow, que ao término da conferência, prefere convidar Deepak para aprender Física Quântica em vez de questioná-lo. Ambos sabem que suas visões de mundo são discordantes e, então, combinam registrar suas ideias em “Ciência e Espiritualidade”, obra t...