0 Irmão do Henfil
A dor como ascese e o humanismo de Betinho
Oscar Wilde dizia poder
simpatizar com tudo, exceto com o sofrimento. Shelley lembrava que alguns
homens aprendiam sofrendo o que ensinavam por meio de meras palavras.
Wordsworth, poeta e sábio, afirmava que o sofrimento era permanente e obscuro,
participando da natureza do infinito. Montaigne, finalmente, asseverava que o
homem, temeroso de sofrer, antecipava essa forma de dor que é temer alguma
coisa.
Essas quatro visões desse
antiquíssimo tema, se não atenuam em nada os padecimentos do mundo, ao menos
lançam luz sobre a possibilidade de discutir o sofrimento em vários planos
diferentes. Com Wilde, estamos todos nós: podemos simpatizar com o sofredor,
jamais com o sofrimento. De Wordsworth discordamos num aspecto: a perenidade do
padecimento não é real, por isso sua participação no infinito é parcial.
Shelley e Montaigne são, a respeito, incontestáveis.
Em muitos de seus artigos
publicados no "Jornal da Tarde" e "O Estado de S. Paulo",
por mais de duas décadas, o escritor Luiz Carlos Lisboa aborda os diversos
tipos das paixões humanas. E foi em "A Práxis do Sofrimento" que
encontramos este primeiro parágrafo para refletirmos sobre a ascese de um homem
que fez do sofrimento um sentido para que a vida fosse a plenitude do bem para
com o próximo: Herbert de Souza, o Betinho.
Cidadão comum e isento de
pretensões contrárias aos verdadeiros anseios de uma sociedade justa, Betinho
perpetuar-se-á na história, no rol daqueles que jamais utilizaram a máscara da
benevolência que justificasse seus feitos.
Com o corpo frágil desde
sua infância, a tuberculose isolou-o, por alguns anos, do convívio social, em
plena adolescência. Não bastasse a hemofilia, contraiu uma das piores viroses
deste século. Frente a tantos desatinos, jamais esmoreceu. Tornou sua
existência exemplo de fé e esperança para todos os que, destituídos de
argumentos fúteis, justificassem seus atos. Homens que se dizem treinados e aptos para isentarem-se de qualquer sentimento em relação
ao próximo e ao meio em que vivem, nunca e em qualquer tempo, conseguirão
igualar-se à dignidade do irmão do Henfil.
Com pouca margem de erro,
podemos afirmar que, em carne e osso, poucos “Betinhos” existiram. Dedicou sua
vida aos problemas socioeconômicos do sofrido povo brasileiro. Ongueiro de
posse de um humanismo comparável ao de Gandhi, acreditou na capacidade de combater
a fome — a pior arma de guerra e o pior sofrimento que pode haver na face da
terra — por meio de campanhas apolíticas, desprovidas de qualquer objetivo que
não fosse o humanismo sincero.
Sem dúvida alguma, a
humanidade perde uma das mais célebres almas que já passou neste planeta que
Gagarin revelou ser azul.
A Notícia, Terça-feira 12
de agosto de 1997

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