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O Meio Ambiente como espelho moral do nosso tempo

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  "Um ensaio sobre o pensamento ambiental contemporâneo, a relação ética do homem com a natureza e os animais, e a crise moral que atravessa nossa forma de habitar o planeta." “Algo é certo quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica. É errado quando tende ao contrário.” (Aldo Leopold, A Sand County Almanac, 1949)* Durante muito tempo, tratamos o meio ambiente como um cenário. Um pano de fundo generoso, silencioso, sempre disponível para sustentar nossas urgências econômicas, políticas e pessoais. A natureza estava ali — imóvel, resiliente, quase infinita — enquanto nós passávamos, construíamos, explorávamos e partíamos. Hoje, no entanto, ela deixou de ser paisagem e passou a ser espelho. E o reflexo que nos devolve é inquietante. Há décadas, quando se denunciavam crimes ambientais, acidentes industriais ou agressões aos oceanos, o discurso dominante era o da exceção: “foi um caso isolado”, “o impacto é controlável”, “a natureza se ...

Limite, dor e silêncio

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Limite, dor e silêncio Há tempos em que a palavra direito passou a ser usada como disfarce. Surge elegante, bem articulada, mas frequentemente encobre decisões que evitam o enfrentamento moral daquilo que realmente está em jogo. O aborto, apresentado muitas vezes como solução prática, moderna ou libertadora, é um desses temas em que o vocabulário tenta suavizar o que a consciência insiste em não calar: trata-se da interrupção deliberada de uma vida humana em formação. Não se ignora a dor, o medo ou as circunstâncias difíceis que cercam muitas gestações. Essas realidades existem e exigem empatia, acolhimento e responsabilidade social. O que precisa ser questionado é a lógica perigosa que transforma o sofrimento em justificativa automática para suprimir uma vida. Quando toda dificuldade passa a ser motivo suficiente, o valor da existência torna-se relativo, condicionado à conveniência, ao contexto ou à vontade de terceiros. A vida não começa quando é aceita, desejada ou planejada. Ela...

O Silêncio

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Notas sobre dor, violência invisível e escuta “Há dores que não fazem barulho justamente porque aprenderam a existir escondidas .” Como escreveu Luiz Carlos Lisboa, ao refletir sobre os silêncios que a sociedade escolhe cultivar, a violência doméstica contra os homens pertence a essa zona incômoda do não dito. Ela acontece dentro de casas comuns, atravessa relações afetivas e deixa marcas nem sempre visíveis. Não por inexistir, mas porque o homem violentado raramente encontra linguagem, acolhimento ou legitimidade social para se reconhecer como vítima. Entre o medo do ridículo e a inversão automática da culpa, instala-se um pacto silencioso que transforma sofrimento em segredo — e o segredo, em invisibilidade. O constrangimento masculino é um aprendizado antigo. Desde cedo, ensina-se ao homem que dor se engole e fraqueza se esconde. Quando a violência ocorre dentro de casa — espaço que deveria ser abrigo — o paradoxo se torna ainda mais cruel. Não é raro que o homem agredido seja rece...

Perfume de Mulher

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  Entre o cheiro da vida e a cegueira do mundo, este texto é um convite para sentir — mais do que ver — aquilo que permanece invisível aos olhos apressados. ANcapital – quarta-feira ٠ 3 de janeiro de 1996 Para as pessoas que ainda preservam o hábito de aprofundar-se em reflexões sobre tudo e sobre todos os acontecimentos diversos, que estigmatizam muitas vezes a vida e o sagrado percurso da existência humana, vale rever, antes das euforias provocadas pelos vinhos espumantes, um dos maiores filmes que em muito retrata os sentimentos de cada um de nós: Perfume de Mulher. Em Perfume de Mulher, Al Pacino interpreta um ex-combatente despossuído de qualquer sentido para que sua existência possua algum brilho. Cego, o mundo que o envolve torna-se seu mais voraz inimigo. No entanto, para alívio do espectador atento, seu reencontro com a plenitude da vida ocorre no limiar de sua própria morte. As ingenuidades e doçura de um adolescente que, como obra do destino, torna-se seu companhei...

O Leitor — Guardião das Palavras

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Leitura, memória e a vida secreta das obras abandonadas Há livros que não falam apenas — sussurram. Outros gritam, atravessam gerações, queimam como brasa viva na memória dos que os leram. Existe, porém, uma categoria ainda mais misteriosa: aqueles que adormecem no silêncio das estantes, invisíveis como cidades submersas, esperando que alguém, um dia, os desperte novamente. Sempre me impressionou como a literatura vive do sopro do leitor. Um livro fechado é apenas matéria. Mas, ao abrirmos suas páginas, algo se move: vozes antigas se levantam, personagens caminham, cidades renascem do pó. É como se o tempo nos devolvesse, por instantes, aquilo que julgávamos perdido. Quantos romances já incendiaram épocas inteiras e hoje dormem esquecidos? Autores que foram ídolos — discutidos, citados, disputados em cafés e salões — agora repousam em silêncio absoluto, como se nunca tivessem existido. A história literária é feita de glórias intensas e decadências suaves. Alguns brilham por um século; ...

A Poesia do Coração

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  Memória, dor e humanidade em um espaço de cuidados intensivos. Em Os Miseráveis, romance que enaltece a luta pela dignidade humana, Victor Hugo sentencia que “a vida é um hospício onde cada um tem a sua mania”; recordei-me do clássico francês, que havia lido ainda em minha juventude, no momento em que me encontrava enfermo em uma UTI, devido a um infarto, o segundo, em menos de seis meses, diga-se de passagem. A fragilidade da existência, confrontada com a loucura da alegria e a sanidade da dor, revelava-se em sua forma mais crua naquele espaço reservado para cuidados intensivos. Um microcosmo da sociedade onde a luta pela vida, a fragilidade do corpo e a força do espírito se entrelaçavam. Foi nesse cenário, entre a vida e a morte, que a atitude de um profissional me fez pensar sobre o sentido da apatia de um determinado momento, mascarada pelo profissionalismo.   A alegria sempre foi uma companheira constante, especialmente nos momentos mais desafiadores. Naquele ambien...