A Poesia do Coração

 

Memória, dor e humanidade em um espaço de cuidados intensivos.




Em Os Miseráveis, romance que enaltece a luta pela dignidade humana, Victor Hugo sentencia que “a vida é um hospício onde cada um tem a sua mania”; recordei-me do clássico francês, que havia lido ainda em minha juventude, no momento em que me encontrava enfermo em uma UTI, devido a um infarto, o segundo, em menos de seis meses, diga-se de passagem. A fragilidade da existência, confrontada com a loucura da alegria e a sanidade da dor, revelava-se em sua forma mais crua naquele espaço reservado para cuidados intensivos. Um microcosmo da sociedade onde a luta pela vida, a fragilidade do corpo e a força do espírito se entrelaçavam. Foi nesse cenário, entre a vida e a morte, que a atitude de um profissional me fez pensar sobre o sentido da apatia de um determinado momento, mascarada pelo profissionalismo.

 A alegria sempre foi uma companheira constante, especialmente nos momentos mais desafiadores. Naquele ambiente hospitalar, buscava encontrar motivos para sorrir. Alguns momentos de descontração com uma das enfermeiras, me proporcionavam um alívio momentâneo, uma fuga da angústia da doença. O riso, mesmo que breve, era um bálsamo para a alma, fortalecendo o espírito e impulsionando a busca pela recuperação. O otimismo, alimentado pelo humor, era a principal arma contra a tristeza que pairava sobre os pacientes. Acreditar que as coisas iriam melhorar me dava esperança e me impulsionava a vencer os desafios impostos pela cardiopatia.

Segundos após aquele breve momento com a dedicada enfermeira, um jovem médico que se encontrava em seu posto e que podíamos nos ver frente a frente, levantou e veio em minha direção, parando a poucos centímetros de meu leito ao mesmo tempo mantendo certa distância, numa linguagem corporal que expressava interesse que a conversa seria breve.

Com a voz fria e pausada, desprovido de qualquer demonstração de empatia, o balzaquiano intensivista perguntou-me se eu estava ciente do meu estado clínico e que era muito grave. Respondi-lhe que ‘um pouco’, na intenção de saber se havia algo mais em meu diagnóstico. Ele então acentuou: ‘Pois saiba que é muito grave.’

Com um misto de espanto e incompreensão, fixei meus olhos no dele procurando desvendar alguma mensagem subliminar em seus gestos, e pude perceber que sua intenção era para que eu não “brincasse” mais – mesmo que por alguns segundos, como ocorreu – com a sua parceira de trabalho. Triste, muito triste. De súbito pus-me a chorar compulsivamente, ao mesmo tempo que o médico retornava ao seu lugar, provavelmente imaginando que meu choro fora motivado pela notícia que havia me dado, do que pelo seu gesto ignóbil de conversar com um paciente.

Por um acaso o momento da visita começara e visualizo minha esposa chegando e de imediato quis saber do motivo de minha angústia. A enfermeira veio confortar-me e saber a razão da minha tristeza, expressa em lágrimas. Silenciei e recordei alguns médicos que conheci na minha juventude, que seguravam a mão dos pacientes, demonstrando um ato de carinho, afeto e atenção.

Todos sabemos que a saúde não se resume apenas a diagnósticos e tratamentos. A empatia é o carro-chefe da alma humana, especialmente para aqueles que se dedicam ao cuidado dos enfermos; eles sofrem, sorriem, afagam e acompanham seus pacientes nos momentos derradeiros. Infelizmente, em alguns, a “poesia do coração” que Victor Hugo conhecia como compaixão está ausente.

 

LUIZ DELFINO DE BITTENCOURT MIRANDA

                                                                                             Ensaísta

 

 

Joinville, 15 de setembro de 2024

Comentários

  1. Lindo depoimento, profundo e nos faz refletir sobre a dor e o riso, mesmo num ambiente que não deveria ser tão cruel. A medicina também inclui a empatia como remédio e até cura! Raquel Luísa Pereira Carnin

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  2. Pois é, mestre... alguns profissionais ficam tão embrutecidos com a rotina profissional que perdem sua humanidade. Talvez tenha relação esse embrutecimento com o próprio egoísmo, ao ponto de se ofender com as amostras de Fortaleza no sagrado santuário de sofrimento, a UTI. Mas o fato é que a força do sorriso amedronta, e o medroso sinta a necessidade de calar a "insolência" poderosa do sorriso. Continue sorrindo!

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  3. Grande Professor Luiz Delfino, das atividades de campo, docência às letras. As várias faces do mesmo homem. Feliz com o acaso do destino que nos deu oportunidade de ombrear em muitas missões. Parabéns pelos escritos, ja li muitas. As da PMA nos são particularmente emocionantes.

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  4. Parabéns Luiz !! Grande poeta , além de excelente ser humano!
    Amei cada frase e a cada instante me transportei ao contexto e por diversas vezes me emocionei! Lindo e significante!

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  5. Grande e sempre Poeta, um Ser inesquecível e Humano que nos despertar as mais lindas e singelas Emoções. Parabéns meu Primo Querido!

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  6. As pessoas só podem entregar o que elas tem dentro do coração. Na fragilidade, somos vulneráveis e sofremos com a dureza das pessoas, mas só Deus sabe o que elas carregam em seus corações... Silmere Reis

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  7. Nobre Escriba

    A gentileza e a consideração com o outro tão em falta hoje em dia...

    Excelente texto, que nos faz refletir naquilo que importa.

    Forte abraço!

    Natan

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  8. Amigo querido, é lamentável a atitude de certos profissionais no exercer da sua função. Falta amor no que se faz, empatia com o outro , e lucidez para reconhecer que aquele que hoje cuida, amanhã pode ser o que precisa de cuidados. Somos vidas a céu aberto e tudo pode acontecer. Mas alegre-se por não ser você aquele que perde a oportunidade de trabalhar com o coração, de fazer o bem. E parabéns pelo texto e a reflexão que ele propõe, muito bom !!!

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  9. Querido poeta e escritor, entendo que neste cenário esteja presente a minoria dos profissionais da área da saúde. No geral, aqueles que cuidam de pessoas costumam ser mais amáveis, cordiais e empáticos. Vejo sim que existem pessoas que se intitulam "cuidadores" sem a mínima essência de humanidade, ou humildade, como propõe a posição ocupada. O egoísmo e o orgulho adoecem o ser humano. Os títulos de nobreza, em muitos casos, levam a alma ao abismo da existência. E como a vida é eterna... um dia a conta chega, o aprendizado será necessário. Espero que a sociedade cuide melhor dos seus para que os seus sejam recíprocos à ela. Cuida do seu coração e nos brinde com mais textos.

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