Simplicidade & Felicidade: uma reflexão filosófica
A simplicidade como virtude quase sublime - Fénelon e o despojamento da alma
François de Saligna de la Mothe, filósofo francês mais
conhecido por Fénelon, costumava dizer que "muitas pessoas são sinceras,
mas não são simples. Nada dizem a não ser o que acreditam ser verdadeiro e não
aparentam coisa alguma, exceto o que de fato são. Mas estão sempre pensando em
si mesmas, escolhendo cada palavra e pensamento, preocupando-se sempre consigo,
na suposição de terem feito pouco ou muito. Jamais se mostram à vontade com os
outros, nem os outros com elas. Ficar absorvido no mundo que nos cerca e nunca
olhar para dentro é o extremo oposto da simplicidade. A alma que olha para onde
vai, sem perder tempo com argumentos inúteis e sem voltar-se para trás, possui
a verdadeira simplicidade".
Para o arcebispo de Cambrai e também um dos maiores escritores
da Europa do século XVIII, a simplicidade não era sinônimo de tolice. Antes,
"longe de ser uma tolice" a simplicidade real "é quase
sublime". Sublime por possuir sua origem no âmago da benevolência.
Ao homem contemporâneo, a alma deixou de ser objeto de
reflexão por estar condicionada com o simplismo leviano, quando deveria estar
com o espírito aberto à sinceridade que, para Fénelon, é o caminho para a
felicidade.
Os meios que encontramos com o objetivo de acumularmos cada
vez mais bens, efêmeros, diga-se de passagem, transfiguraram-nos em seres
automatizados, cujo cotidiano restringe-se ao progresso tecnicista, em que a
simplicidade do que o religioso francês deixou em suas obras não encontrou
cadeira neste final de século.
O egocentrismo, a luta pelo poder a qualquer custo,
intransferível, mesmo sabendo que convivemos como agentes e ao mesmo tempo
espectadores da miséria que assola nossos semelhantes, nos diferem - e muito -
da filosofia cristã de Fénelon que, na interpretação do escritor Luiz Carlos
Lisboa, "não começa de modo algum na ignorância ou desconhecimento do
mundo. Mas no despojamento das ilusões, da perda das imagens vaidosas, no
desaparecimento de figurações e de 'personagens' dentro do homem".
A Notícia
Quarta-feira, 4 de janeiro de 1995
Luiz Delfino de Bittencourt Miranda, ambientalista

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