Asa Verde: sertão, dor e responsabilidade humana

A seca como memória e a canção como forma de resistência



 

 

Luís Gonzaga, o falecido "Rei do Baião", nascido em Exu, no sertão pernambucano, registrou em suas canções o sofrimento de um povo que, de sol a sol, perpetua a esperança de um dia ver suas terras férteis. O velho sanfoneiro de choradinhos conhecia profundamente os estigmas deixados pela seca que alastra a fome e a morte por aquele chão abrasado.

Certa vez, no término da construção de um açude, um lavrador da terra, onde a urze a custo desabrocha, recebeu em troca de seu trabalho um salário que pouco restava para comprar uma rapadura. Então, o calejado homem de olhar febril ergueu seus braços ao céu e exclamou: "Que Deus faça cair uma chuva de feijão e outra de farinha para que eu possa matar a fome de meus filhos!"

Recitada em cordel, registrada em premiadas fotos e tiragens cinematográficas que fazem o espectador atento sentir-se o pior dos mortais, a tão prolongada estiagem transformou-se em símbolo da dor, da angústia e da morte do sofrido povo do Nordeste brasileiro.

Da terra que foi berço de Rui Barbosa e de Virgulino, o Lampião, podemos tomar como ponto de referência que o Brasil vai se transformar num grande sertão e o sertão da asa branca do velho Lula não vai virar mar.

Os desmatamentos e as queimadas continuam ocorrendo em proporções descomunais - e isso é do conhecimento de todos -, e as autoridades responsáveis pelo meio ambiente, no qual vivemos e deveríamos fazer parte, pouco ou nada fazem - se é que existe a intenção de se fazer alguma coisa - para interromper esse processo catastrófico.

Todos os Estados desta terra que um dia foi denominada de Santa Cruz já contam com seus sertões, completamente áridos, onde o pó amarga a convivência dos seres animados com o solo onde pisam.

Impassíveis a esses dantescos acontecimentos, incluindo ainda as sangrentas e bestiais guerras que ocorrem "aqui e agora", optamos por uma posição alienígena, já que não aceitamos a verdade de que somos os verdugos deste planeta que Gagarin revelou ser azul. Para que os olhos verdes da musa de Luís Gonzaga possam espalhar-se nas plantações, urge pensarmos numa transformação de valores, o que exige apenas a boa vontade de cada um de nós.


A Notícia  

Sexta-feira, 18 de novembro de 1994

Luiz Delfino de Bittencourt Miranda, chefe de divisão de meio ambiente da prefeitura de Araquari


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