O Silêncio


Notas sobre dor, violência invisível e escuta

“Há dores que não fazem barulho justamente porque aprenderam a existir escondidas.” Como escreveu Luiz Carlos Lisboa, ao refletir sobre os silêncios que a sociedade escolhe cultivar, a violência doméstica contra os homens pertence a essa zona incômoda do não dito. Ela acontece dentro de casas comuns, atravessa relações afetivas e deixa marcas nem sempre visíveis. Não por inexistir, mas porque o homem violentado raramente encontra linguagem, acolhimento ou legitimidade social para se reconhecer como vítima. Entre o medo do ridículo e a inversão automática da culpa, instala-se um pacto silencioso que transforma sofrimento em segredo — e o segredo, em invisibilidade.

O constrangimento masculino é um aprendizado antigo. Desde cedo, ensina-se ao homem que dor se engole e fraqueza se esconde. Quando a violência ocorre dentro de casa — espaço que deveria ser abrigo — o paradoxo se torna ainda mais cruel. Não é raro que o homem agredido seja recebido com desconfiança ou ironia: “homem não apanha”, “isso é exagero”. Antes mesmo da agressão física, há uma punição simbólica que o empurra de volta ao silêncio.

É preciso dizer: essa violência raramente começa com um soco. Ela se instala devagar, quase imperceptível. Humilhações constantes, desqualificação moral, controle financeiro, chantagem emocional, isolamento. Não deixa hematomas evidentes, mas corrói o chão interno sobre o qual a pessoa se sustenta. Quando o corpo reage — com ansiedade, depressão ou adoecimento — a violência já se tornou rotina.

É aí que as estatísticas falham. Os números dependem de registros, e os registros dependem de denúncia. Mas quem denuncia quando não acredita que será ouvido? O que aparece nos relatórios é apenas a superfície de um problema mais profundo. Sub notificação não é ausência de violência; é ausência de escuta.

O debate público costuma cair numa armadilha perigosa: a disputa sobre “quem sofre mais”. Violência não é jogo de soma zero. Reconhecer homens vítimas não diminui a luta das mulheres. Ao contrário, amplia a compreensão de um fenômeno que exige maturidade social para ser enfrentado sem simplificações.

O custo do silêncio é alto. Homens adoecem, isolam-se, recorrem a fugas que não curam. A violência que não é reconhecida não desaparece; apenas muda de forma e de destino. Nomear a violência doméstica contra homens não é acusar, nem relativizar outras dores. É um gesto de responsabilidade. O silêncio protege o agressor, nunca a vítima. E talvez coragem seja, finalmente, poder dizer: dói. E precisa ser ouvido.
Luiz Delfino de B. Miranda

Comentários

  1. do amigo João Batista Monteiro Rosa

    Bom dia...excelente explanação de uma realidade que acontece em muitos lares...poder dizer qual a solução é muito difícil, pois cada casal é singular. Na minha opinião, tem-se que medir os prós e contra de continuar ou não com um relacionamento doentio assim. Tem-se que pensar se uma separação trará mais ou menos benefícios para ambos. Tem que imaginar você homem morando em uma casa sozinho se terá mais liberdade ou solidão. Sempre há a possibilidade de encontrar outra alma gêmea e recomeçar...

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  2. Tema necessário, principalmente na parte onde se discutir a violência doméstica sofrida também pelos homens, pode reforçar e ampliar a discussão sobre a violência sofrida pela mulheres.

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  3. O tema é pertinente, tão real quanto a realidade constrangedora do fato. Não é simples, é estigmatizado, é tabu. Vejo essa questão como a piada do pobre que se defende da acusação de furto ao alegar ser cleptomaníaco. Ocorre algo parecido com o homem vítima de um relacionamento abusivo. "É homem!" irão dizer, como a anular a sua condição de vítima. A solução é simplesmente falar. Cada vítima precisa falar, precisa se expor, tal qual a mulher que antes se envergonhava ao ser vítima de estupro.

    Eros José Sanches

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  4. O texto enfoca problema da mais alta relevância não somente no âmbito domestico mas também nos ambientes de trabalho, círculos sociais diversos. Muito bem abordado, por sinal, ao fixar-se na introspeção, na absorção dos fatores negativos de relacionamento que produzem angústias e traumas cujas soluções não são identificadas pelo receptor. O “silêncio” é a renúncia à luta, à reação por falta de perspectiva de solução.

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  5. É preciso muita coragem para enfrentar este tema e se expor escrevendo sobre ele. Parabéns pela coragem, erudição, e pela maestria que demonstra que o senhor é um escriba de primeira grandeza. Forte abraço!

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  6. Segue uma mensagem de parabéns, com tom institucional e sensível, destacando a relevância do tema e a coragem do texto:



    Parabéns pela lucidez, sensibilidade e coragem do texto. Ao dar voz ao que historicamente foi empurrado para o silêncio, você toca em uma ferida social real e ainda pouco reconhecida: a violência doméstica praticada contra homens.

    Falar sobre esse tema é romper um pacto de invisibilidade construído por estigmas, preconceitos e expectativas sociais que negam ao homem o direito de sentir dor, de reconhecer-se vítima e, sobretudo, de ser ouvido. Seu texto ilumina aquilo que não aparece nas estatísticas, mas se manifesta no adoecimento, no isolamento e no sofrimento silencioso de muitos.

    A abordagem cuidadosa, longe de disputas ou relativizações, contribui para um debate mais maduro e responsável sobre a violência doméstica em todas as suas formas. Reconhecer essa realidade não diminui outras lutas — ao contrário, amplia a compreensão do fenômeno e reforça a necessidade de uma sociedade que acolha, escute e proteja todas as vítimas.

    Que esse texto siga provocando reflexão, quebrando estigmas e abrindo espaços de escuta. Dar nome à dor é um ato de coragem — e falar sobre ela é um passo essencial para que o silêncio deixe de ser regra e a dignidade humana seja, de fato, universal.

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