Perfume de Mulher
Entre o cheiro da vida e a cegueira do mundo, este texto é um convite para sentir — mais do que ver — aquilo que permanece invisível aos olhos apressados.
ANcapital – quarta-feira ٠ 3 de janeiro de 1996
Para as pessoas que ainda preservam o hábito de aprofundar-se em reflexões sobre tudo e sobre todos os acontecimentos diversos, que estigmatizam muitas vezes a vida e o sagrado percurso da existência humana, vale rever, antes das euforias provocadas pelos vinhos espumantes, um dos maiores filmes que em muito retrata os sentimentos de cada um de nós: Perfume de Mulher.
Em Perfume de Mulher, Al Pacino interpreta um ex-combatente despossuído de qualquer sentido para que sua existência possua algum brilho. Cego, o mundo que o envolve torna-se seu mais voraz inimigo. No entanto, para alívio do espectador atento, seu reencontro com a plenitude da vida ocorre no limiar de sua própria morte. As ingenuidades e doçura de um adolescente que, como obra do destino, torna-se seu companheiro, inebriam de luz aquele espírito que jazia chafurdado nas trevas de seu passado. O bêbado personagem transfigura-se na visão mais aguçada daquele que passa a ser seu fiel escudeiro e retorna ao mundo das coisas dos homens “com os olhos de quem quer ver”.
A capacidade de percepção de que o próximo carrega o mundo sobre os ombros, é raramente vista no cotidiano do homem moderno. A enigmática representação de Al Pacino pode ser interpretada como um alerta, que o suor da película cinematográfica faz, àqueles que se envaidecem com a condição de terem sido educados para não demonstrarem sentimento algum em relação ao próximo, ao meio em que vivem e que deveriam fazer parte como o mais comum dos mortais.
As sangrentas e bestiais guerras, a falta de solidariedade cotidiana e os preconceitos globais são práticas comuns que solidificam a ausência de solidariedade entre seres da mesma espécie. Esses, e muitos outros atos insanos, possuem seu ponto de partida na desconfiança que preside a comunidade humana.
A intenção de extirpar o espírito do aluno que não pretendia testemunhar contra seus colegas da universidade fez com que o excêntrico diretor da Bird vergasse seu orgulho ao cego que possui a capacidade de sentir a essência da vida num simples perfume de mulher.
Prisioneira da própria ignorância, a mente humana encontra-se na clausura da ilusão de um mundo melhor quando “sido as guerras” crucis, os tratados hipócritas - conforme descreve Luiz Carlos Lisboa em “A Importância da Importância” -, os crimes hediondos cometidos em nome da dignidade humana e da justiça social desmascaram os melhores propósitos de líderes e estadistas, que se colocam, como todos nós, separados do fulcro da violência e da injustiça, como se não tivessem em seu espírito a mesma matéria-prima que produz a morte e os ferimentos, a indiferença diante da dor e a ambição de chegar ao poder e de se manter ali.
📄 Publicado originalmente em ANcapital — 03/01/1996
✍ Revisão e edição crítica: Luiz Delfino (2025)
Projeto: Coletânea de Crônicas — Volume I

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